10 março 2010

Irena Sendler
Em polaco; Irena Sendlerowa née Krzyżanowska; (15 de fevereiro de 1910 - 12 de maio de 2008), também conhecida como "o anjo do Gueto de Varsóvia," foi uma activista dos direitos humanos durante a Segunda Guerra Mundial, tendo contribuido para salvar mais de 2.500 vidas ao levar alimentos, roupas e medicamentos às pessoas barricadas no gueto, com risco da própria vida.

"A Mãe das crianças do Holocausto"
A razão pela qual resgatei as crianças tem origem no meu lar, na minha infância. Fui educada na crença de que uma pessoa necessitada deve ser ajudada com o coração, sem importar a sua religião ou nacionalidade. Irena Sendler

Quando a Alemanha Nazi invadiu o país em 1939, Irena era enfermeira no Departamento de bem estar social de Varsóvia, que organizava os espaços de refeição comunitários da cidade.

Ali trabalhou incansavelmente para aliviar o sofrimento de milhares de pessoas, tanto judias como católicas.
Graças a ela, esses locais não só proporcionavam comida para órfãos, anciãos e pobres como lhes entregavam roupas, medicamentos e dinheiro.

Em 1942, os nazis criaram um gueto em Varsóvia, e Irena, horrorizada pelas condições em que ali se sobrevivia, uniu-se ao Conselho para a Ajuda aos Judeus, Zegota.

Ela mesma contou:
"Consegui, para mim e minha companheira Irena Schultz, identificações do gabinete sanitário, entre cujas tarefas estava a luta contra as doenças contagiosas. Mais tarde tive êxito ao conseguir passes para outras colaboradoras. Como os alemães invasores tinham medo de que ocorresse uma epidemia de tifo, permitiam que os polacos controlassem o recinto."

Quando Irena caminhava pelas ruas do gueto, levava uma braçadeira com a estrela de David, como sinal de solidariedade e para não chamar a atenção sobre si própria.
Pôs-se rapidamente em contacto com famílias, a quem propôs levar os seus filhos para fora do gueto, mas não lhes podia dar garantias de êxito. Eram momentos extremamente difíceis, quando devia convencer os pais a que lhe entregassem os seus filhos e eles lhe perguntavam:
"Podes prometer-me que o meu filho viverá?".
Disse Irena, "Que podia prometer, quando nem sequer sabia se conseguiriam sair do gueto?"
A única certeza era a de que as crianças morreriam se permanecessem lá.
Muitas mães e avós eram reticentes na entrega das crianças, algo absolutamente compreensível, mas que viria a se tornar fatal para elas. Algumas vezes, quando Irena ou as suas companheiras voltavam a visitar as famílias para tentar fazê-las mudar de opinião, verificavam que todos tinham sido levados para os campos da morte.

Irena Sendler em Varsóvia, 2005
Ao longo de um ano e meio, até à evacuação do gueto no Verão de 1942, conseguiu resgatar mais de 2.500 crianças por várias vias: começou a recolhê-las em ambulâncias como vítimas de tifo, mas logo se valia de todo o tipo de subterfúgios que servissem para os esconder: sacos, cestos de lixo, caixas de ferramentas, carregamentos de mercadorias, sacas de batatas, caixões... nas suas mãos qualquer elemento transformava-se numa via de fuga.

Irena vivia os tempos da guerra pensando nos tempos de paz e por isso não fica satisfeita só por manter com vida as crianças.
Queria que um dia pudessem recuperar os seus verdadeiros nomes, a sua identidade, as suas histórias pessoais e as suas famílias.
Concebeu então um arquivo no qual registava os nomes e dados das crianças e as suas novas identidades.

Os nazis souberam dessas actividades e em 20 de Outubro de 1943; Irena Sendler foi presa pela Gestapo e levada para a infame prisão de Pawiak onde foi brutalmente torturada. Num colchão de palha encontrou uma pequena estampa de Jesus Misericordioso com a inscrição: “Jesus, em Vós confio”, e conservou-a consigo até 1979, quando a ofereceu ao Pap João Paulo II.

Árvore plantada no Yad Vashem em homenagem a Irena Sendler.

Ela, a única que sabia os nomes e moradas das famílias que albergavam crianças judias, suportou a tortura e negou-se a trair seus colaboradores ou as crianças ocultas.
Quebraram-lhe os ossos dos pés e das pernas, mas não conseguiram quebrar a sua determinação.
Foi condenada á morte.
Enquanto esperava pela execução, um soldado alemão levou-a para um "interrogatório adicional".
Ao sair, gritou-lhe em polaco "Corra!".
No dia seguinte Irena encontrou o seu nome na lista de polacos executados.
Os membros da Żegota tinham conseguido deter a execução de Irena subornando os alemães, e Irena continuou a trabalhar com uma identidade falsa.

Em 1944, durante o Levantamento de Varsóvia, colocou as suas listas em dois frascos de vidro e enterrou-os no jardim de uma vizinha para se assegurar de que chegariam às mãos indicadas se ela morresse.
Ao acabar a guerra, Irena desenterrou-os e entregou as notas ao doutor Adolfo Berman, o primeiro presidente do comité de salvação dos judeus sobreviventes.

Lamentavelmente, a maior parte das famílias das crianças tinha sido morta nos campos de extermínio nazis.
De início, as crianças que não tinham família adoptiva foram cuidadas em diferentes orfanatos e, pouco a pouco, foram enviadas para a Palestina.
As crianças só conheciam Irena pelo seu nome de código "Jolanta".
Mas anos depois, quando a sua fotografia saiu num jornal depois de ser premiada pelas suas acções humanitárias durante a guerra, um homem chamou-a por telefone e disse-lhe: "Lembro-me da sua cara.

Foi você quem me tirou do gueto."

E assim começou a receber muitas chamadas e reconhecimentos públicos.
Em 1965, a organização Yad Vashem de Jerusalém outorgou-lhe o título de Justa entre as Nações e nomeou-a cidadã honorária de Israel.
Em Novembro de 2003 o presidente da República Aleksander Kwaśniewski, concedeu-lhe a mais alta distinção civil da Polónia: a Ordem da Águia Branca. Irena foi acompanhada pelos seus familiares e por Elżbieta Ficowska, uma das crianças que salvou, que recordava como "a menina da colher de prata".

Proposta para o Nobel da Paz

Funeral de Irena Sendler.
Irena Sendler foi apresentada como candidata para o prémio Nobel da Paz pelo Governo da Polónia.

Esta iniciativa pertenceu ao presidente Lech Kaczyński e contou com o apoio oficial do Estado de Israel através do primeiro-ministro Ehud Olmert, e da Organização de Sobrevivente do Holocausto residentes em Israel.

As autoridades de Oświęcim (Auschwitz) expressaram o seu apoio a esta candidatura, já que consideraram que Irena Sendler era uma dos últimos heróis vivos da sua geração, e que tinha demonstrado uma força, uma convicção e um valor extraordinários frente a um mal de uma natureza extraordinária.
O prémio, no entanto, foi dado a Al Gore.



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02 março 2010







Sturmpanzer IV
« Brummbär » 1942
Sd.Kfz. 166
Versão: Stu.Pz.Abt. 216
Roma - Itália, Junho 1944

30,4 ton

peça, Obus 150 mm
comp. 5,93 m

larg. 2,88 m
alt. 2,52 m
autonomia:

estrada 190 km
mato ? km
v.máx.:

estrada 38 kmh
mato 15 kmh
depósito: 470 L

5 tripulantes
blindagem máx. aço 100 mm

escala 1:72-8,5 cm

base 7x13 cm
extras: Diorama, fundo, pormenores pintura, acessórios, patines, base técnica.


Entre Abril de 1943 e Março de 1945 com base no chassis do polivalente Panzer IV, construiram-se 298 Stumpanzer IV “Brummbär” em vários lotes sucessivos e, depois de receberem pequenos aperfeiçoamentos, estes blindados foram enquadrados em diferentes batalhões.

Apesar de não estar livre de falhas técnicas, foi um veículo apreciado pelas suas tripulações e o seu obus de 150 mm era temido pelos seus inimigos.

Mais tarde, a partir de Outubro de 1943, as fábricas acrescentaram á blindagem, “Zimmerit”, uma textura exterior rugosa, especial para evitar a fixação de minas magnéticas.


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28 fevereiro 2010


... Afinal, um dos traços que caracterizam Fernando Pessoa era o repúdio de clubes e rótulos, como muito bem expressou em O Jornal, corria o ano de 1915:

« Convicções profundas só as têm as criaturas superficiais.
Os que não repararam para as coisas, quase que as vêem apenas para esbarrar com elas, esses são sempre da mesma opinião, são os íntegros.
A política e a religião gastam dessa lenha, e é por isso que ardem tão mal entre a Verdade e a Vida.»...


In Maníacos de Qualidade
de Joana Amaral Dias
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16 fevereiro 2010


Acende velas, coloca lençóis bonitos, usa lingerie elegante.
Não guardes para uma ocasião especial. Hoje é especial.
Prepara-te bastante, depois deixa-te levar pela maré...

Sê excêntrica agora, não esperes ficar velha para usar roxo.

REGINA BRETT
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Observe bem a foto acima.
Você iria chutar logo de cara que isto é um sapato?
Pois é exatamente isto o que ele é!
O designer londrino Julian Hakes criou esse calçado conceitual usando fibra de carbono – para dar força e maleabilidade –, além de borracha e couro.
Bem criativo.
Mas também parece desconfortável para você?

in territoriofeminino.blogtv

14 fevereiro 2010


Cerâmica das Caldas

Uma parte significativa de cerca de 110 peças de cerâmica são provenientes do Espólio Emanuel Araújo, figura destacada da cultura contemporânea brasileira.

A Colecção Berardo para além deste núcleo adquiriu um grande número de peças excepcionais que foram produzidas no final do século XIX e início do século XX pelos melhores ceramistas das Caldas da Rainha, Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) e Manuel Cipriano Gomes, o “Mafra”, (sua cidade de origem) (1830-1905).

Este último começou a trabalhar na fábrica das Caldas com vinte anos e anos mais tarde foi nomeado pelo Rei Fernando II para trabalhar para a Casa Real.

Rafael Bordalo Pinheiro foi um desenhador, aguarelista, caricaturista político e social e ceramista de talento.

Quando se fixou nas Caldas da Rainha em 1884, o seu irmão fundou a “Fábrica de Faiança” onde ele assumiu a direcção artística e fez das Caldas da Raínha um centro da cerâmica reconhecido internacionalmente.

Bordalo não se restringiu apenas à fabricação de loiça ornamental, satisfez também dezenas de pequenas e grandes encomendas para a decoração de palacetes: azulejos, painéis, frisos, placas decorativas, floreiras, fontes-lavatório, centros de mesa, bustos, molduras, entre outros.
Nesta colecção, mostram-se peças de inportância rara, em excelente estado de conservação.

in Berardo Collection

08 fevereiro 2010




Rosa Lobato de Faria

Portugal perdeu uma Rosa da nossa cultura. A sua contribuição à cultura estende-se de Portugal a além fronteiras.

http://www.youtube.com/watch?v=g-Xuz59s3jw

O dia 2 de Fevereiro 2010, vai ficar marcado pela morte de uma figura ímpar da cultura portuguesa.

Filipa Estrela festrela@destak.pt


A escritora, poetisa, argumentista, cronista e actriz Rosa Lobato de Faria morreu, aos 77 anos, vítima de uma anemia grave que a manteve internada desde a semana passada.
O corpo da artista vai estar esta manhã na Igreja de Sta. Isabel, onde se vai realizar uma missa às 15h.

Inúmeras foram as figuras e entidades que expressaram as suas condolências, entre as quais Cavaco Silva, o Ministério da Cultura, João Botelho, Mário Zambujal, José Jorge Letria e Alice Vieira.

Rosa Lobato de Faria nasceu em Abril de 1932 e publicou o 1º livro aos 63 anos, quando escreveu "O Pranto de Lúcifer", em 1995.

Foi reconhecida com o Prémio Máxima de Literatura, em 2000 e escreveu obras infantis, letras de músicas e poesia, reunida em Poemas Escolhidos e Dispersos.
Fez vários trabalhos naTV, onde se estreou como locutora nos anos 60, até ter integrado telenovelas como Vila Faia e séries.
No cinema, entrou em dois filmes de João Botelho.

In DESTAK

A escritora, letrista e actriz Rosa Lobato Faria, morreu hoje, dia 2, aos 77 anos, depois de uma semana de internamento num hospital privado.
Foi colaboradora (dizendo poesias) de David Mourão-Ferreira em programas literários da televisão.
Autora, entre outros, dos romances Flor do Sal, A Trança de Inês, Romance de Cordélia, O Prenúncio das Águas, ou mais recentemente A Estrela de Gonçalo Enes (ed. Quasi).

Publicamos aqui a 'autobiografia' que escreveu para o JL há dois anos:

Autobiografia:
Quando eu era pequena havia um mistério chamado Infância.
Nunca tínhamos ouvido falar de coisas aberrantes como educação sexual,política e pedofilia.
Vivíamos num mundo mágico de princesas imaginárias, príncipes encantados e animais que falavam.
A pior pessoa que conhecíamos era a Bruxa da Branca de Neve.
Fazíamos hospitais para as formigas onde as camas eram folhinhas de oliveira e não comíamos à mesa com os adultos.

Isto poupava-nos a conversas enfadonhas e incompreensíveis, a milhas do nosso mundo tão outro, e deixava-nos livres para projectos essenciais, como ir ver oscilar os agriões nos regatos e fazer colares e brincos de cerejas.
Baptizávamos as árvores, passeávamos de burro, fabricávamos grinaldas de flores do campo.

Fazíamos quadras ao desafio, inventávamos palavras e entoávamos melodias nunca aprendidas.
Na Infância as escolas ainda não tinham fechado.
Ensinavam-nos coisas inúteis como as regras da sintaxe e da ortografia, coisas traumáticas como sujeitos, predicados e complementos directos, coisas imbecis como verbos e tabuadas.
Tinham a infeliz ideia de nos ensinar a pensar e a surpreendente mania de acreditar que isso era bom.

Não batíamos na professora, levávamos-lhe flores.
E depois ainda havia infância para perceber o aroma do suco das maçãs trincadas com dentes novos, um rasto de hortelã nos aventais, a angustia de esperar o nascer do sol sem ter a certeza de que viria (não fosse a ousadia dos pássaros só visíveis na luz indecisa daaurora), a beleza das cantigas límpidas das camponesas, o fulgor das papoilas.

E havia a praia, o mar, as bolas de Berlim. (As bolas de Berlim são uma espécie de ex-libris da Infância e nunca mais na vida houve fosse o que fosse que nos soubesse tão bem).

Aos quatro anos aprendi a ler; aos seis fazia versos, aos nove ensinaram-me inglês e pude alargar o âmbito das minhas leituras infantis.
Aos treze fui, interna, para o Colégio.
Ali havia muitas raparigas que cheiravam a pão, escreviam cartas às escondidas, e sonhavam com os filmes que viam nas férias.
Tínhamos a certeza de que o Tyrone Power havia de vir buscar-nos, com os seus olhos morenos, depois de nos ter visto fazer uma entrada espampanante no salão debaile onde o Fred Astaire já nos teria escolhido para seu par ideal.

Ressoava nas paredes cheias de sol, ay eu coitada, como vivo em gran cuidado.
Chamava-se a isto Adolescência, as formas cresciam-nos como as necessidades do espírito, música, leitura, poesia, para mim sobretudo literatura, história universal, história de arte, descobrimentos e o Camões a contar aquilo tudo, e as professoras a dizerem, aplica-te, menina, que vais ser escritora.

Eram aulas gloriosas, em que a espuma do mar entrava pela janela, a música da poesia medieval

, e ay flores, se sabedes novas, vai-las lavar alva, e o rio corria entre as carteiras e nele molhávamos os pés e as almas.

Além de tudo isto, que sorte, ainda havia tremas e acentos graves.
Mas também tínhamos a célebre aula de Economia Doméstica de onde saíamos com a sensação de que a mulher era uma merdinha frágil, sem vontade própria, sempre a obedecer ao marido, fraca de espírito que não de corpo, pois, tendo passado o dia inteiro a esfregar o chão com palha de aço, a espalhar cera, a puxar-lhe o lustro, mal ouvia a chavena porta havia de apresentar-se ao macho milagrosamente fresca,vestida de Doris Day, a mesa posta, o jantarinho rescendente, e nem uma unha partida, nem um cabelo desalinhado, lá-lá-lá, chegaste, meu amor, que felicidade! (A professora era uma solteirona, mais sonhadorado que nós, que sabia todas as receitas do mundo para tirar todas as nódoas do mundo e os melhores truques para arear os tachos de cobre que ninguém tinha na vida real).

Mas o que sabíamos nós da vida real?
Aos 17 anos entrei para a Faculdade sem fazer a mínima ideia do que isso fosse.
Aos 19 casei-me, ainda completamente em branco (e não me refiro só à cor do vestido).
Só seis anos, três filhos e centenas de livros mais tarde é que resolvi arrumar os meus valores como quem arruma um guarda-vestidos.
Isto não, isto não se usa, isto não gosto, isto sim, isto seguramente, isto talvez.

Os preconceitos foram os primeiros a desandar, assim como todos os itens que à pergunta porquê só me tinham respondido porque sim, ou, pior, porque sempre foi assim.
E eu, tumba, lixo, se sempre foi assim é altura de deixar de ser e começar a abrir caminho às gerações futuras (ainda não sabia que entre os meus 12 netos se contariam nove mulheres).
Ouvi ontem uma jovem a dizer, a revolução que nós fizemos nos últimos anos.

Não meu amor: a revolução que NÓS fizemos nos últimos 50 anos.
Mas não interessa quem fez o quê.
É preciso é que tenha sido feito.
E que seja feito.
E eu fiz tudo,quando ainda não era suposto.
Quando descobri que ser livre era acreditar em mim própria, nos meus poucos, mas bons, valores pessoais.
Depois foram as circunstâncias da vida.
A alegria de mais um filho, erros, acertos, disparates, generosidades, ingenuidades, tudo muito bom para aprender alguma coisa.

Tudo muito bom.
Aprender é a palavra chave e dou por mal empregue o dia em que não aprendo nada.
Ainda espero ter tempo de aprender muita coisa, agora que decidi que a Bíblia é uma metáfora da vida humana e posso glosar essa descoberta até, praticamente, ao infinito.
Pois é.
Eu achava, pobre de mim, que era poetisa.
Ainda não sabia que estava só a tirar apontamentos para o que havia de fazer mais tarde.


A ganhar intimidade, cumplicidade com as palavras.
Também escrevia crónicas e contos e recados à mulher-a-dias.
E de repente, aos 63anos, renasci.
Cresceu-me uma alma de romancista e vá de escrever dez romances em 12 anos, mais um livro de contos (Os Linhos da Avó) e sete ou oito livros infantis.

(Esta não é a minha área, mas não sei porquê, pedem-me livros infantis. Ainda não escrevi nenhum que me procurasse como acontece com os romances para adultos, que vêm de noite ou quando vou no comboio e se me insinuam nos interstícios do cérebro, e me atiram para outra dimensão e me fazem sorrir por dentro o tempo todo e me tornam mais disponível, mais alegre, mais nova).
Isto da idade também tem a sua graça.
Por fora, realmente, nota-se muito.
Mas eu pouco olho para o espelho e esqueço-me dessa história da imagem.

Quando estou em processo criativo sinto-me bonita.
É como setivesse luzinhas na cabeça.
Há 45 anos, com aquela soberba muito feminina, costumava dizer que o meu espelho eram os olhos dos homens.
Agora são os olhos dos meus leitores, sem distinção de sexo, raça, idade ou religião.
É um progresso enorme.

Se isto fosse uma autobiografia teria que dizer que, perto dos 30,comecei a dizer poesia na televisão e pelos 40 e tais pus-me a fazer umas maluqueiras em novelas, séries, etc.
Também escrevi algumas destas coisas e daqui senti-me tentada a escrever para o palco, que é uma das coisas mais consoladoras que existem (outra pessoa diria gratificantes, mas eu, não sei porquê, embirro com essa palavra).
Não há nada mais bonito do que ver as nossas palavras ganharem vida, e sangue, e alma, pela voz e pelo corpo e pela inteligência dos actores.
Adoro actores.

Mas não me atrevo a fazer teatro porque não aprendi.
Que mais? Ah, as cantigas.
Já escrevi mais de mil e 500 e é uma das coisas mais divertidas que me aconteceu.
Ouvir a música e perceber o que é que lá vem escrito, porque a melodia, como o vento, tem uma almae é preciso descobrir o que ela esconde. Depois é uma lotaria.
Ou me cantam maravilhosamente bem ou tristemente mal.
Mas há que arriscar e, no fundo, é só uma cantiga.
Irrelevante.

Se isto fosse uma autobiografia teria muitas outras coisas paracontar. Mas não conto.
Primeiro, porque não quero.
Segundo, porque só me dão este espaço que, para 75 anos de vida, convenhamos, não é excessivo.
Encontramo-nos no meu próximo romance.

Rosa Lobato Faria

Gentileza da amiga Julieta R.
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Lar é onde se acende o lume e se partilha mesa
e onde se dorme à noite o sono da infância.
Lar é onde se encontra a luz acesa quando se chega tarde.
Lar é onde os pequenos ruídos nos confortam:
um estalar de madeiras, um ranger dos degraus,
um sussurrar de cortinas.
Lar é onde não se discute a posição dos quadros,
como se eles ali estivessem desde o princípio dos tempos.
Lar é onde a ponta desfiada do tapete,
a mancha de humidade no tecto,
o pequeno defeito no caixilho,
são imutáveis como uma assinatura conhecida.
Lar é onde os objectos têm vida prórpia e as paredes nos contam histórias.
Lar é onde cheira a bolos, a canela, a caramelo.
Lar é onde nos amam.
Rosa Lobato Faria in "O Sétimo Véu"