Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens

08 fevereiro 2010




Rosa Lobato de Faria

Portugal perdeu uma Rosa da nossa cultura. A sua contribuição à cultura estende-se de Portugal a além fronteiras.

http://www.youtube.com/watch?v=g-Xuz59s3jw

O dia 2 de Fevereiro 2010, vai ficar marcado pela morte de uma figura ímpar da cultura portuguesa.

Filipa Estrela festrela@destak.pt


A escritora, poetisa, argumentista, cronista e actriz Rosa Lobato de Faria morreu, aos 77 anos, vítima de uma anemia grave que a manteve internada desde a semana passada.
O corpo da artista vai estar esta manhã na Igreja de Sta. Isabel, onde se vai realizar uma missa às 15h.

Inúmeras foram as figuras e entidades que expressaram as suas condolências, entre as quais Cavaco Silva, o Ministério da Cultura, João Botelho, Mário Zambujal, José Jorge Letria e Alice Vieira.

Rosa Lobato de Faria nasceu em Abril de 1932 e publicou o 1º livro aos 63 anos, quando escreveu "O Pranto de Lúcifer", em 1995.

Foi reconhecida com o Prémio Máxima de Literatura, em 2000 e escreveu obras infantis, letras de músicas e poesia, reunida em Poemas Escolhidos e Dispersos.
Fez vários trabalhos naTV, onde se estreou como locutora nos anos 60, até ter integrado telenovelas como Vila Faia e séries.
No cinema, entrou em dois filmes de João Botelho.

In DESTAK

A escritora, letrista e actriz Rosa Lobato Faria, morreu hoje, dia 2, aos 77 anos, depois de uma semana de internamento num hospital privado.
Foi colaboradora (dizendo poesias) de David Mourão-Ferreira em programas literários da televisão.
Autora, entre outros, dos romances Flor do Sal, A Trança de Inês, Romance de Cordélia, O Prenúncio das Águas, ou mais recentemente A Estrela de Gonçalo Enes (ed. Quasi).

Publicamos aqui a 'autobiografia' que escreveu para o JL há dois anos:

Autobiografia:
Quando eu era pequena havia um mistério chamado Infância.
Nunca tínhamos ouvido falar de coisas aberrantes como educação sexual,política e pedofilia.
Vivíamos num mundo mágico de princesas imaginárias, príncipes encantados e animais que falavam.
A pior pessoa que conhecíamos era a Bruxa da Branca de Neve.
Fazíamos hospitais para as formigas onde as camas eram folhinhas de oliveira e não comíamos à mesa com os adultos.

Isto poupava-nos a conversas enfadonhas e incompreensíveis, a milhas do nosso mundo tão outro, e deixava-nos livres para projectos essenciais, como ir ver oscilar os agriões nos regatos e fazer colares e brincos de cerejas.
Baptizávamos as árvores, passeávamos de burro, fabricávamos grinaldas de flores do campo.

Fazíamos quadras ao desafio, inventávamos palavras e entoávamos melodias nunca aprendidas.
Na Infância as escolas ainda não tinham fechado.
Ensinavam-nos coisas inúteis como as regras da sintaxe e da ortografia, coisas traumáticas como sujeitos, predicados e complementos directos, coisas imbecis como verbos e tabuadas.
Tinham a infeliz ideia de nos ensinar a pensar e a surpreendente mania de acreditar que isso era bom.

Não batíamos na professora, levávamos-lhe flores.
E depois ainda havia infância para perceber o aroma do suco das maçãs trincadas com dentes novos, um rasto de hortelã nos aventais, a angustia de esperar o nascer do sol sem ter a certeza de que viria (não fosse a ousadia dos pássaros só visíveis na luz indecisa daaurora), a beleza das cantigas límpidas das camponesas, o fulgor das papoilas.

E havia a praia, o mar, as bolas de Berlim. (As bolas de Berlim são uma espécie de ex-libris da Infância e nunca mais na vida houve fosse o que fosse que nos soubesse tão bem).

Aos quatro anos aprendi a ler; aos seis fazia versos, aos nove ensinaram-me inglês e pude alargar o âmbito das minhas leituras infantis.
Aos treze fui, interna, para o Colégio.
Ali havia muitas raparigas que cheiravam a pão, escreviam cartas às escondidas, e sonhavam com os filmes que viam nas férias.
Tínhamos a certeza de que o Tyrone Power havia de vir buscar-nos, com os seus olhos morenos, depois de nos ter visto fazer uma entrada espampanante no salão debaile onde o Fred Astaire já nos teria escolhido para seu par ideal.

Ressoava nas paredes cheias de sol, ay eu coitada, como vivo em gran cuidado.
Chamava-se a isto Adolescência, as formas cresciam-nos como as necessidades do espírito, música, leitura, poesia, para mim sobretudo literatura, história universal, história de arte, descobrimentos e o Camões a contar aquilo tudo, e as professoras a dizerem, aplica-te, menina, que vais ser escritora.

Eram aulas gloriosas, em que a espuma do mar entrava pela janela, a música da poesia medieval

, e ay flores, se sabedes novas, vai-las lavar alva, e o rio corria entre as carteiras e nele molhávamos os pés e as almas.

Além de tudo isto, que sorte, ainda havia tremas e acentos graves.
Mas também tínhamos a célebre aula de Economia Doméstica de onde saíamos com a sensação de que a mulher era uma merdinha frágil, sem vontade própria, sempre a obedecer ao marido, fraca de espírito que não de corpo, pois, tendo passado o dia inteiro a esfregar o chão com palha de aço, a espalhar cera, a puxar-lhe o lustro, mal ouvia a chavena porta havia de apresentar-se ao macho milagrosamente fresca,vestida de Doris Day, a mesa posta, o jantarinho rescendente, e nem uma unha partida, nem um cabelo desalinhado, lá-lá-lá, chegaste, meu amor, que felicidade! (A professora era uma solteirona, mais sonhadorado que nós, que sabia todas as receitas do mundo para tirar todas as nódoas do mundo e os melhores truques para arear os tachos de cobre que ninguém tinha na vida real).

Mas o que sabíamos nós da vida real?
Aos 17 anos entrei para a Faculdade sem fazer a mínima ideia do que isso fosse.
Aos 19 casei-me, ainda completamente em branco (e não me refiro só à cor do vestido).
Só seis anos, três filhos e centenas de livros mais tarde é que resolvi arrumar os meus valores como quem arruma um guarda-vestidos.
Isto não, isto não se usa, isto não gosto, isto sim, isto seguramente, isto talvez.

Os preconceitos foram os primeiros a desandar, assim como todos os itens que à pergunta porquê só me tinham respondido porque sim, ou, pior, porque sempre foi assim.
E eu, tumba, lixo, se sempre foi assim é altura de deixar de ser e começar a abrir caminho às gerações futuras (ainda não sabia que entre os meus 12 netos se contariam nove mulheres).
Ouvi ontem uma jovem a dizer, a revolução que nós fizemos nos últimos anos.

Não meu amor: a revolução que NÓS fizemos nos últimos 50 anos.
Mas não interessa quem fez o quê.
É preciso é que tenha sido feito.
E que seja feito.
E eu fiz tudo,quando ainda não era suposto.
Quando descobri que ser livre era acreditar em mim própria, nos meus poucos, mas bons, valores pessoais.
Depois foram as circunstâncias da vida.
A alegria de mais um filho, erros, acertos, disparates, generosidades, ingenuidades, tudo muito bom para aprender alguma coisa.

Tudo muito bom.
Aprender é a palavra chave e dou por mal empregue o dia em que não aprendo nada.
Ainda espero ter tempo de aprender muita coisa, agora que decidi que a Bíblia é uma metáfora da vida humana e posso glosar essa descoberta até, praticamente, ao infinito.
Pois é.
Eu achava, pobre de mim, que era poetisa.
Ainda não sabia que estava só a tirar apontamentos para o que havia de fazer mais tarde.


A ganhar intimidade, cumplicidade com as palavras.
Também escrevia crónicas e contos e recados à mulher-a-dias.
E de repente, aos 63anos, renasci.
Cresceu-me uma alma de romancista e vá de escrever dez romances em 12 anos, mais um livro de contos (Os Linhos da Avó) e sete ou oito livros infantis.

(Esta não é a minha área, mas não sei porquê, pedem-me livros infantis. Ainda não escrevi nenhum que me procurasse como acontece com os romances para adultos, que vêm de noite ou quando vou no comboio e se me insinuam nos interstícios do cérebro, e me atiram para outra dimensão e me fazem sorrir por dentro o tempo todo e me tornam mais disponível, mais alegre, mais nova).
Isto da idade também tem a sua graça.
Por fora, realmente, nota-se muito.
Mas eu pouco olho para o espelho e esqueço-me dessa história da imagem.

Quando estou em processo criativo sinto-me bonita.
É como setivesse luzinhas na cabeça.
Há 45 anos, com aquela soberba muito feminina, costumava dizer que o meu espelho eram os olhos dos homens.
Agora são os olhos dos meus leitores, sem distinção de sexo, raça, idade ou religião.
É um progresso enorme.

Se isto fosse uma autobiografia teria que dizer que, perto dos 30,comecei a dizer poesia na televisão e pelos 40 e tais pus-me a fazer umas maluqueiras em novelas, séries, etc.
Também escrevi algumas destas coisas e daqui senti-me tentada a escrever para o palco, que é uma das coisas mais consoladoras que existem (outra pessoa diria gratificantes, mas eu, não sei porquê, embirro com essa palavra).
Não há nada mais bonito do que ver as nossas palavras ganharem vida, e sangue, e alma, pela voz e pelo corpo e pela inteligência dos actores.
Adoro actores.

Mas não me atrevo a fazer teatro porque não aprendi.
Que mais? Ah, as cantigas.
Já escrevi mais de mil e 500 e é uma das coisas mais divertidas que me aconteceu.
Ouvir a música e perceber o que é que lá vem escrito, porque a melodia, como o vento, tem uma almae é preciso descobrir o que ela esconde. Depois é uma lotaria.
Ou me cantam maravilhosamente bem ou tristemente mal.
Mas há que arriscar e, no fundo, é só uma cantiga.
Irrelevante.

Se isto fosse uma autobiografia teria muitas outras coisas paracontar. Mas não conto.
Primeiro, porque não quero.
Segundo, porque só me dão este espaço que, para 75 anos de vida, convenhamos, não é excessivo.
Encontramo-nos no meu próximo romance.

Rosa Lobato Faria

Gentileza da amiga Julieta R.
Google
JJ edição fotos

Lar é onde se acende o lume e se partilha mesa
e onde se dorme à noite o sono da infância.
Lar é onde se encontra a luz acesa quando se chega tarde.
Lar é onde os pequenos ruídos nos confortam:
um estalar de madeiras, um ranger dos degraus,
um sussurrar de cortinas.
Lar é onde não se discute a posição dos quadros,
como se eles ali estivessem desde o princípio dos tempos.
Lar é onde a ponta desfiada do tapete,
a mancha de humidade no tecto,
o pequeno defeito no caixilho,
são imutáveis como uma assinatura conhecida.
Lar é onde os objectos têm vida prórpia e as paredes nos contam histórias.
Lar é onde cheira a bolos, a canela, a caramelo.
Lar é onde nos amam.
Rosa Lobato Faria in "O Sétimo Véu"

26 janeiro 2010

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa... Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa

Google
JJ edição foto

21 janeiro 2010



Retrato Talvez Saudoso da Menina Insular
Natália Correia


Tinha o tamanho da praia
o corpo era de areia.
Ele próprio era o início
do mar que o continuava.
Destino de água salgada
principiado na veia.

E quando as mãos se estenderam
a todo o seu comprimento
e quando os olhos desceram
a toda a sua fundura
teve o sinal que anuncia
o sonho da criatura.

Largou o sonho nos barcos
que dos seus dedos partiam
que dos seus dedos paisagens
países antecediam.

E quando o seu corpo se ergueu
Voltado para o desengano
só ficou tranquilidade
na linha daquele além.
Guardada na claridade
do olhar que a retém.

Natália Correia

Google

17 janeiro 2010

Da Clara à Negra Ciência

Uma laranja cai
E o chão impede
que ela infinitamente caia.
Impedimento
Ou o invento
De uma ciência
Que já foi gaya
E agora é tristemente astronómica.
Raios a partam
A bomba atómica

Natália Correia

Google
JJ edição fotos

12 janeiro 2010

Ser artista é ser alguém!
Que bonito é ser artista...
Ver as coisas mais além
Do que alcança a nossa vista!


Não é só na grande terra
Que os poetas cantam bem:
Os rouxinóis são da serra
E cantam como ninguém.

Da música a melodia
Diz, pela alma falando,
Mais do que a boca diria
Muitas horas conversando

Embora os meus olhos sejam

Os mais pequenos do mundo,
O que importa é que eles vejam
O que os homens são no fundo.


António Aleixo

Google
JJ edição fotos

02 janeiro 2010

Lágrima de preta

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.


Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas

em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

António Gedeão

Google
quadros autor desconhecido
JJ edição fotos

21 dezembro 2009

Mulher guerreira
Nancy Cobo

Mulher amiga, amante, mãe
Mulher que inicia seu dia trabalhando
E termina, amando...
Mulher que protege, luta briga e chora
E que nunca deixa o cansaço
Tirar o seu sorriso, sua força, a esperança
Que está sempre pronta a amar, e proteger a sua prole
Sua vida, o seu amor
Mesmo que esteja chorando por dentro
No seu olhar esta sempre presente
A força de lutar por tudo o que quer

Mesmo cansada
Está sempre pronta para seguir em frente
E quando cai, se levanta tirando de sua queda
Uma grande lição
Aprendendo então, a passar por cima das armadilhas da vida

Mulher Guerreira que se torna
Forte e frágil ao mesmo tempo
Que busca dentro de seu interior a força
Que chora para poder se fortalecer
Através das lágrimas que rolam
Que se levanta para poder
Levantar a quem está em sua volta
Precisando de uma palavra de carinho
De esperança, de amor...

Essa é a mulher guerreira
Que se faz de forte
Mas ao mesmo tempo é tão frágil
Como um cristal...
Mas que não se deixa quebrar tão facilmente

Nancy Cobo
Gentileza de Blog "A Casa do Bruxo"

Dedicado às Mulheres Guerreiras da minha vida, em cujas couraças
vão ricocheteando as flechadas da vida.
JJ

14 dezembro 2009



Ontem à Tarde um Homem das Cidades Alberto Caeiro

Ontem à tarde um homem das cidades
Falava à porta da estalagem.
Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça
E dos operários que sofrem,
E do trabalho constante, e dos que têm fome,
E dos ricos, que só têm costas para isso.
E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos
E sorriu com agrado, julgando que eu sentia
O ódio que ele sentia, e a compaixão
Que ele dizia que sentia. (Mas eu mal o estava ouvindo).
Que me importam a mim os homens
E o que sofrem ou supõem que sofrem?
Sejam como eu — não sofrerão.
Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros,
Quer para fazer bem, quer para fazer mal.
A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos.
Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)
Eu no que estava pensando
Quando o amigo de gente falava (E isso me comoveu até às lágrimas),

Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos
A esse entardecer
Não parecia os sinos duma capela pequenina
A que fossem à missa as flores e os regatos
E as almas simples como a minha. (Louvado seja Deus que não sou bom),

E tenho o egoísmo natural das flores
E dos rios que seguem o seu caminho
Preocupados sem o saber
Só com florir e ir correndo.
É essa a única missão no Mundo,
Essa — existir claramente,
E saber faze-lo sem pensar nisso.
E o homem calara-se, olhando o poente.
Mas que tem com o poente quem odeia e ama?

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXXII"
Heterónimo de Fernando Pessoa

Google
JJ edição fotos

11 dezembro 2009


Nuvens correndo num rio

Natália Correia


Nuvens correndo num rio
Quem sabe onde vão parar?
Fantasma do meu navio
Não corras, vai devagar!

Vais por caminhos de bruma
Que são caminhos de olvido.
Não queiras, ó meu navio,
Ser um navio perdido.

Sonhos içados ao vento
Querem estrelas varejar!
Velas do meu pensamento
Aonde me quereis levar?

Não corras, ó meu navio
Navega mais devagar,
Que nuvens correndo em rio,
Quem sabe onde vão parar?

Que este destino em que venho
É uma troça tão triste;
Um navio que não tenho
Num rio que não existe.

Natália Correia
Google
JJ edição foto